As barbas do profeta, líder dos míticos Seeds, estão de volta. A neopsicodelia é a onda, e é preciso saber distinguir autênticos de imitadores… PEPE ESCOBAR, de passagem pela California dá a dica.
A Califórnia é o lugar privilegiado das tecnologias externas e internas, ou seja, tecnologias e domínio do meio ambiente (microeletrônica, robótica, indústria espacial), conquista e entendimento de nosso "eu profundo" (terapias, misticismos, orientalismos). Na Califórnia, o império americano, alcançada a expansão máxima em termos físicos, à beira do Pacífico, não tem mais para onde ir, a não ser para o espaço - e para dentro de cada um...
Na Califórnia, Timothy Leary - o guru dos sixties com seu antológico conselho "sintonize, ligue-se e caia fora" (do sistema) - hoje trabalha com computadores e software psicoativo. Ou seja, uma outra maneira de fazer as pessoas conseguirem pensar por si próprias. Leary e outros professores estão desenvolvendo uma nova lingüística. Fala-se nas principais universidades UCLA, Berkeley, Stanford - de "diversão biofísica" e "comunicação multissensorial". Vídeos-artistas trabalham em termos de aumentar o poder da mente através do processamento eletrônico de imagens. Na música, o que poderíamos chamar de neopsicodelia (cuidado com as generalizações!) reúne uma atenção redobrada à produção dos 60´s e novas visões de velhos e novos experimentadores.
Entre os mais famosos pajés da psicodelia californiana, Sky Saxon está de volta à ação. O lendário Godfather do estraçalhamento psíquico de garagem, via os formidáveis Seeds, reorganizou a banda para regravar seus greatest hits. O álbum vende solidamente. Saxon - de longas barbas semibrancas, enormes cabelos e vestes dignas de Brian Jones em Monterey 67 - também gravou um álbum ao vivo no Cavem Club de L.A., Private Party, com backing de bandas como Red Kross e Primates, e versões - bomba de clássicos tipo "No Escape" e "Girl I Want You".Andou fazendo sessões com Bangles, Dream Syndicate, Troogs e a especialista em OVNIs, Nina Hagen. Ele é o próprio embaixador da neopsicodelia.
O profetismo ocasionalmente delirante de Saxon não deixa de encantar nem mesmo os cínicos profissionais. No meio de um universo pop mais plástico do que as cadeiras de um Burger King, não deixa de ser um antídoto. Vejam só alguns saxonismos a rigor. "Nós vamos acabar como sangue nas ruas, a menos que tenhamos mais paz e amor na música, mais amor e flower power, e pessoas percebendo que o paraíso está dentro delas." Para sobreviver, "todos precisam ser vegetarianos". Saxon afirma que a música é um negócio de 8 bilhões de dólares, dos quais pretende abocanhar 35% e assim poder alimentar o mundo. Para ele, marijuana é uma erva sagrada, dada aos homens por Deus e pela Constituição americana, e tirada por J. Edgar Hoover, o defunto diretor do FBI. Desmente que os Seeds mandassem ver em LSD. Diz que basta olhar para o sol para conseguir efeito semelhante ao do LSD. Define-se, acima de tudo, Sky Sunlight Saxon Firewall. Firewall representa o fogo de Deus que o dito irá conjurar para proteger seus filhos.
Sky, entre seus colaboradores atuais, conta com Mark Bonfire, o antológico autor de "Bom To Be Wild". No meio de uma demência revivalística dos sixties, por que não ficar com um artefato autêntico? Procurem Sky Saxon - seus novos álbuns e os morteiros dos Seeds - onde puderem. Seu messianismo o deixará, no mínimo, bem-humorado. Sky Sunlight Saxon Firewall, ele mesmo, já avisou: com os Beatles, "não era a nossa hora". Agora é. Neopsicodélicos, now there´s no escape.
Um malucaço que falava com mortos e viajava em discos voadores.
Nenhum comentário:
Postar um comentário