Hammersmith Palais(Londres) - 24/11/85
PEPE ESCOBAR
Quando consegui depositar meus restos mortais em uma sarjeta gelada de Hammersmith, e olhei para três louras suecas de negro, dançando com seus posters na mão, concluí: o verdadeiro espírito do rock´n´roll está vivo. Tinha acabado de sofrer o efeito da bomba Cult, e estava, como dizem os anglosaxões, in bliss. Nas nuvens, quem sabe, uma expressão intraduzível.
O Cult não tem mistério. Guitarra, baixo, bateria e vocal. E tem todos os mistérios. Produto de sua autenticidade. Vitalidade. E inocência. Características básicas de Ian Astbury, seu front man, um sensualissimo garotão de Sheffield, gato das letras, pantera na frente de um microfone. Ian, com seus cabelos negros escorrendo pelos ombros, veludos, sedas, écharpes, colares, pulseiras e eventualmente sacudindo um pandeiro, parece saído da Londres no final dos anos 60 ou dos parques de São Francisco na mesma época. Seu tema é esse: o sonho dos 60. Poesia, arte, amor, revolução, cabelos longos, possibilidades infinitas. Uma filosofia envolta em referencias iconográficas aos índios americanos.
O carisma da figura de Ian, no palco, é o de um branco que chegou a uma tribo, tomou uma droga sagrada, performou certos rituais e passou a comandar uma cerimônia. Grande parte das composições do Cult tem um fortíssimo componente de dança na tribo. Só isso já os destaca de qualquer outra banda de rock´n´roll de primeira classe.
O bote final da serpente é que as fantasias visionárias de Ian saem dos tambores - e cordas - certas. Billy Duffy - um Eddie Cochrane de imenso topete louro e imaculada Gibson branca com controles dourados - é um tremendo guitarrista. Reinventou a distorção sofisticada, sob controle, com eco na medida certa. Toca por três, no mínimo. Jamie Stewart - além de lindo como um anjo psicodélico - segura um impecável baixo percussivo. E a bateria vai do 4/4 com muito shhhhhhh ao tribalismo que os tecnopops tentam imitar mas jamais conseguem.
Há muito tempo que eu não via uma platéia - garotada entre 15 e 18 - ficar tão completamente fora de si. Foi o último show de uma longa excursão, os músicos estavam quase mortos, mas caíram matando. Se o Cult é mestre em remixagens - vide seus matantes compactos de 12" pela Beggars Banquet: "Ressurrection Joe", "Sanctuary" e "Here Comes the Rain" - ao vivo, a seco, deixam todo o espaço para Billy Duffy mostrar por que é cotado, em certos círculos, como o melhor guitarrista da Inglaterra. Que sejam desconhecidos no Brasil é, no mínimo, uma tragédia.
Quando Ian gritava "There´s a Revolution", dava para ver que ele acreditava no que estava dizendo. Há uma revolução, claro, está dentro do coração de quem expõe sua alma e sua sensibilidade para tentar viver uma vida mágica. Fecharam o show, claro, com sua antológica versão de "Wild Thing / Louie Louie". Troggs caindo em Hendrix, Kingsmen caindo em Kinks. Uma mini-história do som dos 60, e melhor. O Cult é talvez a melhor banda dos anos 60 do planeta. Que estejamos nos 80, não faz a menor diferença. Há uma revolução, boy, e ela está dentro de você.
Tenho certeza. Nela você encontrará o Santuário.
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