quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O RISO (Manchete Esportiva, 08/03/1956)


camerica 56
                       NELSON RODRIGUES
     Eis a verdade: — o que sustenta, o que nutre, o que dinamiza o
futebol é a vaidade. Vejamos o juiz. É um crucificado vitalício. Seja
ele o próprio Abrahão Lincoln, o próprio Robespierre, e a massa
ignara e ululante o chamará de gatuno. Dirá alguém que ele percebe
um bom salário. Nem assim, nem assim. Não há dinheiro que o
compense e redima, nenhum ordenado que o lave, que o purifique. E,
no entanto, ele não renuncia às suas funções nem por um decreto.
      Pergunto: — por que esta obstinação? Amigos, a vaidade o
encouraça, a vaidade o torna inexpugnável, a vaidade o ensurdece
para as 200 mil bocas que urram: — “Ladrão! Ladrão! Ladrão!”.
     O mesmo acontece com o craque, com o paredro, com o
técnico. O futebol os projeta e pendura nas manchetes, e esta
publicidade histérica constitui uma delícia suprema. E ninguém é
modesto, ninguém. Qualquer jogador, ou qualquer dirigente, ou
qualquer técnico tem a torva e a vaidade de uma prima-dona gagá,
cheia de pelancas e de varizes. Eu disse que ninguém é modesto no
futebol. Em tempo retifico: — há, sim, uma única e escassa figura,
que, no meio do cabotinismo frenético e geral, constitui uma exceção
franciscana. Refiro-me ao esquecido, ao desprezado, ao doce
massagista.
     A imprensa e o rádio falam de tudo, numa sádica e minuciosa
cobertura. Jamais, porém, um locutor, um repórter lembrou-se de
mencionar a atuação de um massagista. Ele não merece, ao menos,
uma citação desprimorosa. Um bandeirinha consegue ser vaiado.
Não o massagista, que não inspira nada: — nem amor, nem ódio.
     Dir-se-ia que o gandula é mais importante. E, no entanto, apesar da humildade sufocante de suas funções, o massagista pode ser uma
dessas figuras capitais, que resolvem o destino das batalhas.
     Para não ir muito longe, citarei o exemplo de Mário Américo.
Tudo na sua figura de ex-boxeur justifica uma simpatia universal, a
começar pela cabeça minuciosamente raspada, até o último vestígio
de cabelo. Esse coco lustroso e negro já o distingue dos demais, em
violento destaque. Pois bem: — simples e humilde massagista, Mário
Américo influi mais nos fatos do campo, na evolução das partidas,
que muito jogador, muito paredro, muito técnico. E não é com
massagens platônicas, não é fazendo seu métier, que o homem tem
decidido vários jogos. Mário Américo age pelo riso, apenas pelo riso.
     Sim, amigos: — quando ele se abre, quando se escancara,
quando se alarga no seu riso incoercível, não há força que o
contenha e que lhe resista. Mário Américo sério é um pobre ser,
duma esplendorosa nulidade como todos nós. Mas a gargalhada o
transfigura, dá-lhe uma nova dimensão racial, uma grandeza
inesperada e terrível, o equipara a certos negros da ficção e da vida:
— Paul Robeson, José do Patrocínio, Otelo, imperador Jones etc.
Sobretudo nas pelejas internacionais, tudo, nesse homem de
cor, é um riso só: — riem os lábios, as gengivas, os dentes, as ventas
e até a careca retinta. Foi o que aconteceu no Brasil x Argentina*, em
Montevidéu. Luizinho deu um corte num adversário de forma tão
espetacular que Mário Américo não resistiu: — nunca o seu riso foi
tão largo, nunca o seu riso teve, como naquele momento, uma
dilatação de parto. E aquela cara que ria alucinou os nossos
adversários. Como vencer uma gargalhada cósmica? Se pudessem,
os argentinos teriam atravessado aquele riso com uma lança, como
nas gravuras de são Jorge.

* Brasil 1 x 0 Argentina, 5/2/1956, no Estádio Centenário.

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