António Torrado escreveu e
Cristina Malaquias ilustrou
Era uma vela, uma única vela que alumiava
debilmente um quarto. A longa língua rubra da vela estremecia, enquanto ela falava:
– Vou morrer, não tarda. Em vão, porque a minha chama não deu luz a nada que merecesse a pena. Nem testemunhei
o nascimento de uma criança nem realcei um beijo de amor nem inspirei o poema de um poeta. Podia ter sido o minúsculo farol que ajudasse alguém a ir ter com alguém,
mas nenhum vulto quis pegar no meu castiçal solitário. Sou uma inútil.
E a vela, a extinguir-se, desfazia-se em lágrimas de cera.
Mas um leve ruído, vindo do corredor, alvoraçou-lhe os últimos lampejos.
Era um ladrão, que, guiado pela luz da vela, se preparava para levantar a tampa de uma arca que guardaria, decerto, algum tesouro.A vela viu tudo, num relance.
Nada já podia, porque o pavio, que sustenta a chama, se afundava no pequeno lago de cera da vela a desfazer-se, a apagar-se, de vez.
E eis que, de repente, escureceu. O ladrão sobressaltou--se e, sem luz para guiá-lo, tropeçou numa esteira, que deslocou uma cadeira, que tombou sobre uma prateleira, cheia de livros. Alguns caíram, fazendo imenso barulho.
– Quem está aí? – gritou uma voz forte de alguém, que o barulho acordara.
O visitante furtivo preferiu não responder e fugiu, deitando ao chão mais cadeiras e estantes, num grande atarantamento. Desceu uma escada, correu por um jardim, saltou um muro e ainda ouviu gritos e o estampido de uma caçadeira, à conta dele.
Não fosse ter-se apagado a vela, que se julgava inútil, e
a história teria sido diferente.
FIM
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