Tradução de Maria José Fernandes de Mello
ILIA VARSHAVSKI
O indicador da calculadora eletrônica que analisava o comportamento de Michka, havia já uma semana, assinalava a nota relevante e, por isso, decidimos celebrar o acontecimento.
Liúlia propôs ir ao concerto das sensações difundidas, eu disse que se podia visitar o museu de aroma de bebida alcoólica e Michka exigiu que fôssemos ao café molecular.
Como era de prever, fomos ao café Molecular, porque fora Michka quem se comportara bem e não era justo o privar do direito de escolha.
Num aparelho telecinético nos deslocamos até lá num instante. No caminho só uma vez tivemos uma sacudidela, quando pensei que poderíamos passar no museu ainda que fosse só um momento. Por sorte ninguém notou.
No café nos dirigimos a uma mesa encarnada, mas Liúlia disse que gostava mais da comida sintetizada a partir do petróleo claro que da do escuro.
Lhe recordei que nos jornais se dissera que na aparência eram equivalentes.
Liúlia respondeu que talvez fosse um capricho, mas, quando se faz algo por gosto próprio, porque não satisfazer os caprichos?
Não discutimos consigo porque a apreciamos muito e queríamos que obtivesse o maior prazer da visita ao café.
Quando nos sentamos à mesa branca, no écrã do televisor apareceu a imagem dum robô com gorro e bata brancos. O sorridente robô nos explicou que no café de síntese molecular havia 360 pratos. Pra obter o prato escolhido, se tinha que se marcar o número correspondente no prato da mesa. Além disso acrescentou que, se queríamos algo que não houvesse na ementa, tinha que se pôr a antena na cabeça e pensar no prato. Então, o autômato cumpriria a incumbência.
Olhei a Michka e entendi imediatamente que não desejávamos o que havia na ementa.
Liúlia pediu um prato de filhó e eu um pseudobifesteca. O pseudobifesteca estava suculento, tenro e muito apetitoso. Liúlia disse que não podia comer tanta filhó e que eu podia ficar com uma metade. Assim fizemos e lhe dei metade do bife.
Enquanto estávamos ocupados nisso, Michka, enfastiado, remexia com o garfo o prato inventado por ele, que consistia em pepino salgado, sardinha, papa de sêmola e doce de framboesa, tentando compreender por que, às vezes, a combinação de coisas tão boas resulta numa porcaria.
Tive pena de si e pus o prato no destruto. Liúlia lhe disse que quando se compõe com imaginação alguma comida, se tem que se concentrar mais.
Então Michka começou a sintetizar uma empada em forma de nave sideral. Entretanto tentei imaginar que gosto deveria ter a bebida que se preparava pra mim, se acrescentando uma gota de conhaque. Quase que o conseguira quando, de repente, se acendeu um sinal vermelho e o robô que apareceu no écrã, disse que nesse café não se podiam fazer tais coisas.
Liúlia me acariciou a mão, teve pena de mim, e disse que ao sair do café, ela e Michka iriam a casa e eu podia ir ao museu. Liúlia se preocupava mais com os outros do que consigo. Eu sabia que ela queria ir ao concerto das sensações e lhe disse que ia a casa com Michka, e que ela fosse ao concerto. Então, propôs que o melhor seria irmos todos a casa e passarmos a tarde tranqüilamente.
Queria lhe agradar e imaginei uma fruta que tivesse a forma duma laranja, o gosto dum sorvete e que cheirasse como seus perfumes preferidos. Sorriu e deu, decididamente, uma dentada, arrancando um grande pedaço.
Gosto muito de ver Liúlia sorrir, pois todas as vezes que sorri a quero ainda mais.
Quando dispúnhamos a ir a casa no aparelho telecinético, Liúlia disse que esses antigos cafés moleculares são uma preciosidade e sua comida é muito mais agradável que a que se sintetiza em casa a partir da estação central.
Pensei que era devido a que na síntese da comida sempre se introduziam perturbações através dos fios condutores.
Já em casa, de repente Liúlia começou a chorar. Disse que a comida sintética era uma porcaria, que odiava a cibernética e que queria viver no meio da natureza, viajar a pé, ordenhar cabra, beber leite natural e comer pão de centeio. Disse também que as sensações infundidas eram uma paródia do sentimento humano.
Michka começou também a chorar e declarou que a calculadora do comportamento era uma invenção infame, que um rapaz que se chamava Tom Sawyer, que vivia na antigüidade, e que ele apreciava em alto grau, passava perfeitamente sem calculadora. Depois disse que se inscrevera no círculo de eletrônica somente pra apreender a enganar a calculadora e que se não o conseguisse, faria uma fisga pra fazer um crivo no imbecil automático.
Os tranqüilizava como podia ainda que pensasse também que o museu de aroma não era uma invenção tão extraordinária. Pensei também qualquer coisa dos pseudobifes. Em suma, talvez nos cansemos de encomendar comida.
Depois nos deitamos.
Sonhei que lutara de braço partido cum urso e que estávamos sentados junto a uma fogueira, comendo a agradável carne de urso cheirando a sangue e fumaça.
Michka metia na boca enormes bocados e Liúlia me olhava alegre, com seu maravilhoso sorriso, e um pouco perturbado.
É difícil imaginar como era feliz em sonho, porque, não recordo se já o disse, gosto muito de Liúlia e Michka.
Quando acordei, constatei que sonhara todas essas palermices do café, e então escrevi este conto. Me parece, pois, que, se deixarmos livremente os cibernéticos, o resultado não será muito bom.
É necessário que não os percamos de vista.
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