domingo, 30 de março de 2014

O MARTÍRIO DE NÍLTON SANTOS (O Globo, 12/03/1964)


1972A
PRÊMIO ESSO DE FOTOGRAFIA 1972
Nilton Santos agride Armando Marques
Autor: José Santos, O Globo
O ex-zagueiro da Seleção brasileira de Futebol, Nilton Santos, insatisfeito com a atuação do árbitro Armando Marques no jogo entre o Atlético Mineiro e o Botafogo, o agride e o empurra na boca do túnel, fazendo-o rolar escada abaixo. Nilton Santos era o técnico do Botafogo.


                     NELSON RODRIGUES
     Amigos, minha última obsessão é a seguinte: — o tapa que
Nílton Santos deu no juiz*. O episódio ainda é assunto, é notícia, é
manchete. O craque foi arrastado a julgamento. Em vão, bateu às
portas da indulgência humana. Ninguém lhe concedeu uma
atenuante. A impressão que se teve é que o tapa de Nílton Santos
está entre os sete pecados capitais.
   Cabe
então a pergunta: — a coisa merecia esse estardalhaço?
Merecia essa promoção? Receio que sim e explico. Não há tapa
intranscendente. Agressor, vítima e testemunhas estão implicados na
mesma humilhação. Eu me lembro de uma cena que vi, faz tempo,
numa luta de Éder Jofre. Na altura do segundo ou terceiro round,
um espectador ergue-se, aos uivos. Vociferava para o ringue: —
“Parem! Parem!”. Cercado por três ou quatro, o sujeito foi arrastado.
Mais desgrenhado e ululante do que um jeremias, ele ia soluçando:
— “Não se bate na cara de ninguém! De ninguém!”.
Pa
rece que a Justiça Esportiva, sensível à transcendência do
tapa, levou o castigo às últimas conseqüências. E, de repente, Nílton
Santos lembrou o martírio de Dreyfus. Como se sabe, diante da tropa
formada, arrancaram os bordados de Dreyfus, depenaram as
dragonas, arrancaram os botões, derrubaram o boné. Tudo isso ao
som de tambor, cometa, o diabo. Nílton Santos quase teve essa
degradação total.
E
não ocorreu a ninguém que um tapa pode ter a sua ética profunda. Nílton Santos bateu por quê? Sim, por quê? Vamos
reconstituir o fato. Segundo todas as testemunhas, o árbitro correu
para o jogador e espetou-lhe o dedo na cara. Vamos e venhamos: — é
meio triste para um adulto, casado, pai de filhos, sofrer uma desfeita
assim pública e assim hedionda.
A gravidade de uma humilhação depende de público. Se os dois
estivessem num terreno baldio, apenas assistidos por alguma cabra
vadia, a coisa não teria nenhum patético. É a testemunha que
valoriza e dramatiza as ofensas. Nílton Santos e o juiz brigaram num
campo de futebol. Gente por toda parte, e repito: — gente pendurada
até no lustre. Dirá alguém que o jogador agrediu. Convém lembrar:
— dedo na cara também é agressão.
Eis o problema: — um juiz pode agredir e um jogador não pode
revidar? Dirá algum fariseu que o atleta não pode dar tapas como
um gângster. Ora, mil vezes mais grave, mais solene, mais hierático
do que o atleta é o ser humano. Um jogador não pode ser, nunca, a
antipessoa. E, afinal de contas, se houvesse justiça real, o jogador
que se portou como homem — e por isso mesmo — teria de ser
desagravado, promovido, premiado.
Mas, no caso, há também um aspecto desesperador. Refiro-me
à infalibilidade que se confere ao juiz de futebol. Tem um poder que,
hoje, negamos ao rei da Arábia Saudita. A tirania mais cruel e obtusa
tem seus limites. E só o juiz de futebol paira acima do bem e do mal.
Sim, depois do que fizeram com Maria Antonieta, ou com Maria
Stuart, ou com Inês de Castro — não se entende que um apito, um
reles apito, possa tornar alguém sagrado, intangível.

* Nílton Santos, 39 anos e bicampeão do mundo, foi suspenso por sessenta
dias por agredir Armando Marques.

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