domingo, 25 de maio de 2014

A COPA DO APITO (O Globo, 25/07/1966)


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                     NELSON RODRIGUES
     Amigos, eis uma verdade inapelável: — só os subdesenvolvidos
ainda se ruborizam. Ao passo que o grande povo é, antes de tudo,
um cínico. Para fundar um império, um país precisa de um impudor
sem nenhuma folha de parreira. Vejam a presente Jules Rimet. Nas
barbas indignadas do mundo, a Inglaterra se prepara para ganhar no
apito o caneco de ouro.
     Vocês pensam que há algum disfarce, ou escrúpulo, ou
mistério? Absolutamente. Tudo se fez e se faz com uma premeditação
deslavada e na cara das vítimas. A serviço da Inglaterra, a FIFA
escalou oito juizes ingleses para os jogos do Brasil. A arbitragem foi
manipulada para liquidar primeiro os bicampeões e, em seguida, os
outros países sul-americanos. O match Inglaterra x Argentina* foi um
roubo. Uruguai x Alemanha, outro escândalo.
     E nem se pense que a Inglaterra baixou a vista, escarlate de
vergonha. Nada disso. Por que rubor, se ela é um grande povo e se
tem, ou teve, um grande império? Vejam o sincronismo da coisa: —
um juiz alemão deu a vitória à Inglaterra contra a Argentina, um juiz
inglês deu a vitória à Alemanha contra o Uruguai. No match
Argentina x Alemanha, foi expulso um jogador argentino. Terminado
o jogo, cinco jogadores sul-americanos tiveram que sair quase de
maca.

     Valeu tudo contra o Brasil e, sobretudo, contra Pelé. O crioulo
foi caçado contra a Bulgária. Não pôde jogar contra a Hungria e só
voltou contra Portugal. Nova caçada. Sofreu um tiro de meta no
joelho. Verdadeira tentativa de homicídio. O juiz inglês nem piou.
Silva levou um bico nas costelas. Jairzinho foi outra vítima e assim
Paraná. O árbitro a tudo assistia com lívido descaro.
     E nós? Que fizemos nós? Nada. No último jogo, o Brasil
apanhou sem revidar. Amigos, eu sei que os nossos jogadores
tiveram um preparo físico quase homicida. Antes da primeira
botinada, já o craque brasileiro estava estourado. Sei também que o
Brasil não teve, jamais, um time. A nossa equipe era o caos. Por
outro lado, faltou-nos qualquer organização de jogo, qualquer projeto
tático.
     Além disso, porém, a seleção brasileira acusou um defeito
indesculpável e suicida. Como se sabe, esta Copa é uma selva de pé
na cara. E, no entanto, vejam vocês: — o brasileiro lá apareceu com
um jogo leve, afetuoso, reverente, cerimonioso. E havia um abismo
entre os dois comportamentos: nós, fazendo um futebol diáfano,
incorpóreo, de sílfides; os europeus, como centauros truculentos,
escouceando em todas as direções.
     Ainda ontem, o sr. Barbosa Lima Sobrinho escrevia um lúcido
artigo sobre a suavidade do nosso escrete. Note-se que se trata de
um acadêmico, que deve ter compromissos com as boas maneiras, a
polidez, o trato fino etc. etc. Mas ele enxergou o óbvio ululante, ou
seja: — o futebol vive de sombrias e facinorosas paixões. Durante os
noventa minutos, são onze bárbaros contra onze bárbaros.
     Claro que as palavras do sr. Barbosa Lima Sobrinho são
outras. Mas o sentido, se bem o entendi, é este. Portanto, não tem
sentido que o Brasil vá jogar contra os bárbaros europeus com
manto de arminho, sapatos de fivela ou peruca de marquês de Luís
XV. Eis a verdade: — o que dá charme, apelo, dramatismo aos
clássicos e às peladas é o foul. A poesia do futebol está no foul. E os
jogos que fascinam o povo são os mais truculentos.
     O Brasil naufragou num mar de contusões por isso mesmo: —
porque sabia apanhar e não sabia reagir. O ilustre acadêmico está
rigorosamente certo. Hoje, depois do pau que levamos, aprendemos
que o craque brasileiro tem de ser reeducado. Digo “reeducado” no
sentido de virilizar o seu jogo. Amigos, o Mário Pedrosa está fazendo
um ensaio sobre o futebol. É um pensador político, um crítico de
artes plásticas, homem de uma lucidez tremenda. Ora, o intelectual
brasileiro que ignora o futebol é um alienado de babar na gravata. E
o nosso Mário Pedrosa sabe disso e foi um dos sujeitos que sofreram
na carne e na alma o fracasso da seleção. Pois espero que, no seu
ensaio, inclua todo um capítulo assim titulado: — “Da necessidade
de baixar o pau”.
     Dito isto, vamos escolher o meu personagem da semana. Podia
ser Paraná. Eu sei que, tecnicamente, ele deixa muito a desejar. Sei.
Mas, contra os portugueses, Paraná deu um pau firme e épico. Mas
eu prefiro Rildo. Que grande, solitária e inexpugnável figura. No meio
do jogo, era tal o seu brio que dava a sensação, por vezes, de que ia
comer e beber a bola. Foi um bárbaro jogando contra bárbaros.
Amigos, o argentino que deu no juiz alemão lavou a alma de todo um
povo. Pois o nosso Rildo, com suas rútilas botinadas, promoveu e
reabilitou o homem brasileiro.


* Nelson refere-se aos jogos Inglaterra 1 x 0 Argentina e Alemanha 4 x 0 Uruguai pelas
quartas-de-final. Cinco dias depois da publicação dessa crônica, na finalíssima
Inglaterra x Alemanha (30/7/1966, em Londres), o jogo normal terminou 2 x 2. Na
prorrogação, o inglês Hurst chutou, a bola bateu no travessão e quicou em cima da
linha do gol alemão, sem entrar. O juiz suíço validou o gol inexistente. A Inglaterra
ainda faria outro gol (resultado final 4 x 2) e seria campeã do mundo, como previra
Nelson.

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