domingo, 1 de junho de 2014

A INVISIBILIDADE DO ÓBVIO (O Globo, 26/10/1968)


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                           NELSON RODRIGUES
     Eu ia começar esta crônica dizendo o que mesmo? Ia dizer que
nada mais antigo do que o passado recente. Perdão. Não é bem isso.
Ah, agora me lembro. O que eu queria dizer é que ninguém enxerga o
óbvio. Poderão objetar que já escrevi isso umas duzentas vezes. Ai de
mim, ai de mim. Não sinto nenhum escrúpulo, nenhum pudor de me
repetir. Hoje, porém, tenho uma variação. Direi que o óbvio é não só
invisível, mas detestável.
     A toda hora, e em toda parte, encontramos inimigos ferozes do
óbvio. Um deles é o nosso Armando Marques, o maior juiz do futebol
brasileiro. Vocês conhecem o episódio. No último Fla—Flu*, o ponta
tricolor Wílton recebeu um lançamento em profundidade. O garoto
corre mais do que um coelhinho de desenho animado. Conseguiu
bater o marcador, ultrapassá-lo em sua velocidade fulminante. Por
desgraça, o goleiro adversário saíra antes e ia agarrar a bola.
Wílton usou a mão e tirou-lhe a bola. Perfeito lance de
basquete. A falta foi de um óbvio tão ululante que Armando Marques
não viu. E o nosso extreminha pôde, com um sublime descaro, enfiar
a bola no fundo das redes. Ora, o nosso melhor árbitro ganha 12
milhões antigos. É um salário de Walther Moreira Salles. E ninguém
entendeu que, tão bem pago, Armando Marques fosse cego, surdo e
mudo para a evidência estarrecedora.
     Houve quem insinuasse duas hipóteses: — ou má-fé ou
incompetência. Nem uma coisa, nem outra. A competência ou a boa fé
de Armando Marques está acima de qualquer dúvida ou sofisma.

     Portanto, só uma coisa o justifica e absolve: — a invisibilidade do
óbvio.

* Fluminense 1 x 0 Flamengo, 13/10/1968, Estádio Mário Filho. O gol de Wílton foi
talvez o mais ululantemente ilegal da história do estádio.

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