domingo, 27 de julho de 2014

O GOL MIL (O Globo, 21/11/1969)


Carregado nos ombros por torcedores, Pelé beija a bola de seu milésimo gol, marcado de pênalti contra o Vasco da Gama, no estádio do Maracanã. Um gol que Pelé dedicou a todas as crianças do Brasil. Rio de Janeiro, 19/11/1969. Foto: AE
                          NELSON RODRIGUES
     Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais. Pois
esses 5 milhões deviam estar presentes, anteontem, no Estádio
Mário Filho para ver o milésimo gol de Pelé*. Dirão os idiotas da
objetividade que o ex-Maracanã comporta, no máximo, 250 mil
pessoas. Mas os que não pudessem entrar ficariam do lado de fora,
atracados ao radinho de pilha e chupando laranjas.
     O que acho incrível e, sobretudo, indesculpável é que alguém,
vivo ou morto, pudesse ficar indiferente à mais linda festa do futebol
brasileiro em todos os tempos. Sim, os vivos deviam sair de suas
casas e os mortos de suas tumbas. Viva a mulher bonita, que não
faltou. Só as feias não apareceram.
     Não sei se sabem que o sublime crioulo fascina a mulher
bonita. As mais lindas garotas estavam lá. Mas falei em festa do
futebol e, realmente, foi muito mais do que isso. Era uma festa
nacional, a festa do povo, a festa do homem.
     Na fila dos elevadores, o meu primeiro olhar descobriu a grãfina
das narinas de cadáver. Vocês entendem? Ela continua não
sabendo quem é a bola. Mas o que a magnetizava era Pelé como
homem, mito e herói. Bem sabemos que futebol é um esforço
coletivo. São os times que ganham, perdem ou empatam. Mas no
caso de Pelé, foi um só. Só ele marcou os mil gols. Nunca se viu nada
parecido no mundo. É uma glória maravilhosamente individual,
maravilhosamente solitária. Some-se a isto os gols que ele deu na
bandeja, gols dos quais ele foi o co-autor, ou melhor, foi mais autor
do que o autor. Um passe genial vale como um gol.
     Muitos lamentam que tenha sido de pênalti. Meu Deus do céu,
e daí? Na sua penetração fulminante, tinha batido toda a defesa
adversária. Ia entrar com bola e tudo. E sofreu o pênalti. Não foi um
companheiro, mas ele próprio quem foi derrubado. Não queria
cobrar. Mas seus companheiros fizeram uma greve linda contra o
pênalti. Ninguém tocaria na bola. E, então, 100 mil pessoas, na
gigantesca cadência coral, começaram a exigir: — “Pelé, Pelé, Pelé!”.
     Uma das que mais se esganiçavam era a grã-fina das narinas de
cadáver. Uma louríssima suspirou, arrebatada: — “Com esse eu me
casava!”.
     Mas vejam como o grande acontecimento tem a paisagem
própria. Como já escrevi, Austerlitz não podia ser disputada num
galinheiro. Foi isso que eu disse, quando o Santos jogou no campo
do Esporte Clube Bahia. É óbvio que, depois do Estádio Mário Filho,
todos os campos pequenos se tornaram galinheiros irremediáveis. O
Pacaembu, por exemplo, é um galinheiro. O campo do Botafogo, do
Fluminense, do Parque Antártica, e centenas, milhares de outros
campos obsoletos, são outros tantos galinheiros. É aqui e, repito, é
no Estado Mário Filho que Pelé teve os seus grandes dias e as suas
grandes noites. O próprio crioulo sabe que é muito mais amado aqui
do que em São Paulo.
     Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, criou-se um
suspense colossal no estádio. O meu colega e amigo Villas-Bôas
Corrêa, que não tem nada de passional, estava comovido da cabeça
aos sapatos. A louríssima, por mim citada, sentia-se cada vez mais
noiva de Pelé. O marido, ao lado, parecia concordar com o noivado e
dar-lhe sua aprovação entusiástica. Eu não sei como dizer. Mas
estávamos todos crispados de uma emoção, um certo tipo de emoção,
como não conhecíamos.
     Ao que íamos assistir já era História e já era Lenda. Imaginem
alguém que fosse testemunha de Waterloo, ou da morte de César, ou
sei lá. No ex-Maracanã, fez-se um silêncio ensurdecedor que toda a
cidade ouviu. No instante do chute, a coxa de Pelé tornou-se
plástica, elástica, vital, como a anca de cavalo. Mas havia alguém
contracenando com ele no quinto ato da batalha. Era o formidável
goleiro argentino Andrada. Em qualquer hipótese, ele ia se tornar
uma figura histórica: — defendendo ou não. E quando Pelé estourou
as redes, o Estádio Mário Filho voou pelos ares. Desde Pero Vaz de
Caminha, nenhum brasileiro recebera apoteose tamanha. De repente, como patrícios do guerreiro, cada um de nós sentiu-se um
pouco co-autor do feito. Pelé voou, arremessou-se dentro do gol.
     Agarrou e beijou a bola. E chorava, o divino crioulo. Cem mil
pessoas, de pé, aplaudiam como na ópera. Depois, assistimos à volta
olímpica. Pelé com a camisa do Vasco, Naquele momento éramos
todos brasileiros como nunca, apaixonadamente brasileiros.


* Santos 2 x 1 Vasco da Gama, 19/11/1969, no Estádio Mário Filho.

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