Lolina Araújo e Ermitas Erbecedo, Clara Erbecedo, as avós do López Santana, continuam vivas, graças a Deus, e a gozar a vida cada qual à sua maneira; as duas acabarão por morrer de cancro mas ainda o ignoram, a verdade é que o cancro também ainda as não avisou, cancro da mama e cancro do útero, é tudo o mesmo, zaratão e espigarola, o mau é morder alguém, o cancro não é uma doença mas uma víbora.
A Lolina e a Clara são amigas além de consogras, embora não se visitem muito, a Clara vai algumas tardes tomar chá a casa da dona Leocadia, foi lá que conheceu o Javier Perillo e certa noite levou-o ao seu chalé de San Pedro de Nós.
- Não faças barulho, aqui mando eu, mas tira os sapatos, não faças barulho.
- Não.
Devido a exercícios de tiro de morteiro, das 7 da manhã às 5 da tarde, nos dias 2, 9, 16, 23 e 30 do mês corrente, declara-se zona perigosa para a navegação a compreendida entre os meridianos da ilha de Izaro e o penedo de Ogono, até uma profundidade de 7.000 metros. A Clara e o Javier meteram-se na alcova e entraram para a casa de banho.
- Se queres fazer chichi, eu saio.
- Não.
- Queres fazer chichi?
- Não.
- Queres fazer chichi à minha frente? Eu gostava tanto!...
- Não posso.
- Paciência!
A Clara, ajoelhada no chão, lavou-o muito delicadamente, com muita parcimónia, ensaboou-lhe os sovacos, as ínguas, por entre os dedos dos pés, por todo o corpo menos nos olhos, a Clara beijava-o ; quase com reverência.
- Deixas que eu te chame Fifí? (
- Porquê Fifí? Bom, como você quiser.
A Clara ficou com as faces todas coradas.
- Trata-me por tu, não sejas parvo. Não vês que me estás a dar tesão?
- Como quiseres.
A Clara sorriu quase pensativa.
- Tu também estás com tesão. Prometo que só te chamo Fifí quando estivermos sozinhos, tu não perguntes, nunca se deve perguntar nada porque dá azar.
- Tá bem.
A Clara e o Fifí amaram-se sem remorsos, depois, ao cabo de uma longa meia hora, a mulher ficou de olhos postos no tecto e disse:
- Como vão os teus estudos?
- Vão bem, obrigado.
A Clara calou-se meio minuto.
- Conheces a Dora, a do don Leandro?
- Conheço.
- É verdade que foste para a cama com ela?
- Quem lhe disse isso a si?
- Trata-me por tu.
- Quem te disse isso a ti?
A Clara voltou a ficar calada uns momentos; as pausas costumam fugir das descrições, costumam deslocar-se, ninguém acerta a pô-las no seu devido lugar, as pausas são como as centopeias, que fogem sempre aos ziguezagues e como que desorientadas. A Clara, quando se acostumou a chamar Fifí ao Javier Perillo, sempre no chalé, gozava a acariciar-lhe as orelhas depois de fazerem amor, a Clara também lhe dava chocolate, não à espanhola mas à francesa, mais claro e suave, metia-lho na boca porque era muito maternal, as mulheres muito maternais estão sempre dispostas a adorar o homem, a entregar-se ao homem, a gozar fazendo gozar o homem.
A Clara, nessas situações, falava numa voz mimosa, quase em falsete, às vezes dava vontade de lhe partir a cara.
- Não viste ainda, Fifí, que a Leocadia, que é uma pirosa, pior que ser puta, anda a chular-te?
- Não digas isso, mulher.
- Só faltava que a Dora também te estivesse a chular. Dá-te gravatas e porta-chaves?
- Não digas isso, mulher.
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