PEPE ESCOBAR
Uma câmara no ombro – Aaton 35/8, portátil, feita por encomenda – e várias idéias direto da cabeça para a tela.
Taxa de angústia reduzida. Ele não pára. Depois de “Salve-se Quem Puder” – um doceamargo passeio pela neurose e desencontros do casal europeu moderno – Godard partiu para uma viagem pela pintura de Goya, Delacroix , Rembrandt e Velazquez – “Passion”, inédito no Brasil, sabe-se lá até quando, pois é uma produção independente – e chegou à sua versão de “Carmen” – Bizet substituído por quartetos de Beethoven e uma holandesa-fetiche, elegia a todas as mulheres do mundo. Na edição de 30 de dezembro do “Nouvel Observateur”, Godard em entrevista a Jacques Drillon, fala de tudo: da preferência por filmes Kodak sobre os Fuji à morte do cine em branco-e-preto, da indisciplina dos atores às leis de ferro do “ditador” Godard, da influência da TV à formação de uma nova religiosidade . Jean-Luc , 53 anos, o homem que revolucionou o cinema com “Acossado”, há quase um quarto de século, continua apaixonado pelos demônios das sombras, em uma época que já tem um novo “Acossado” (direção de Jim McBride, com Richard Gere) refilmado em ritmo rock, e onde a “nouvelle vague” se diluiu em infinitas recuperações sob o ubícuo rótulo “new wave”.
Godard rodou “Prénom: Carmen” (Leão de Ouro em Veneza, 83, com fotografia de Raoul Coutard, a holandesa Marushka Detmers no papel principal, que seria de Isabelle Adjani, e montagem e produção do próprio Godard) com filme Kodak. Não usou Fuji porque, segundo ele, “os japoneses elaboraram uma película feita para cores e luzes japonesas, que não são as cores de Vermeer e Rembrandt”. No Ocidente, “diz-se que os rostos são pálidos, mas é falso; eles são rosados, amarelados, rosados pela emoção, avermelhados pela cólera. A Kodak se inscreve dentro da tradição da pintura holandesa”.
Godard, que já fez filmes “vermelhos” (“Weekend”, 67), rodou “Carmen” em amarelo e azul refletindo a personalidade de seu personagem. “Toda a seqüência do hotel é amarela, é interior. Mas o exterior, o mar, o céu, é azul. Enfim trata-se de Carmen: quente e frio. Ela dá frio nos dedos e transmite calor permanentemente. Não se trata de iluminação, e sim de luz. Como no cinema alemão. Hitler sabia muito bem como utilizar a luz”.
Para quem rodou obras-primas como “Vivre as Vie” e “Masculino-Feminino” em branco-e-preto, o duas cores agora está morto: “Trata-se de um efeito estético, um esnobismo. Os laboratórios não sabem mais processa-lo, praticamente não se encontra mais película, e custa muito mais caro”. Para ele, Truffaut rodando em branco-e-preto (refere-se a seu último policial, com Trintrignant e Fanny Ardant), é algo “duvidoso”:
“Quando se filmava em branco-e-preto, no início, é porque não se sabia filmar, havia leis ignoradas, havia muito medo, e além disso, leis que ninguém queria respeitar”.
Ele é um ditador com seus atores ? Não: eles é que se fazem de estrelas: “Com os atores sou alguém que sempre gosta de gente nova. Se já conheço , tento encontrar situações novas entre nós. Em “Prénom:Carmen” havia dois jovens, mas já se consideravam estrelas . Ora para mim a estrela é o filme.
Em alguns momentos , é mais difícil falar aos atores do que a um ministro. Eles são ao mesmo tempo o presidente, o ministro e o povo. Pedi para Marushka escutar os quartetos de Beethoven, dez minutos por dia, escovando os dentes, não escutando , não importa, disse que isso ajudaria na interpretação, mas não adiantou. Depois dizem que filmagens de Godard são difíceis . É verdade, é violento, é a guerra, e isso deve ser sentido no filme”.
Godard está imerso em uma tarefa que só pode ser destrutiva – bombardeando os muros de Berlim do senso comum: “Se é para construir um filme...eu destruo o que me impede...Mas é para reconstruir, de outra maneira, para que não haja apenas destruição. E isso é menos grave do que uma guerra”.
Godard está cansado. Não aguenta mais a falta de comunicação, especialmente o medo da comunicação. Nem esse carrossel indiscriminado de imagens bestiais e bestializadas: “Na televisão, há muitas imagens. Não se sabe mais o que é o quê. Agora se diz: uma imagem; não se diz nem mesmo uma imagem de quê. É como alguém que vai ao médico e diz que está doente, mas sem dizer de quê. E o médico diz: bom, vou lhe dar comprimidos; você prefere os vermelhos ou os azuis ?”.
Mas qual é o sonho de um cineasta que já acreditou na eternidade do cinema – quando também se acreditava eterno – e hoje espera a sua morte ? “Eu queria chegar à IBM e poder dizer: muito bem, tenho um livro de Françoise Dolto sobre religião e psicanálise, tenho dois personagens , José e Maria, tenho três cantatas de Bach, um livro de Heidegger, me façam um programa que organize tudo isso. Mas eles não podem. Eu precisaria fazer tudo sozinho. Só que eu não tenho vontade de gastar vinte anos nesse processo”.
Godard. Um cineasta que entortou corações e mentes no mundo todo e foi idolatrado pelos cineastas brazucas.
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