NELSON RODRIGUES
Amigos, de vez em quando eu esbarro num rubro-negro
desvairado. Ainda ontem, encontrei, no posto 6, o Walter Clark.
Nunca vi ninguém tão Flamengo! Entre parênteses, Walter Clark é
um homem que vive tropeçando em milhões. Tem um ar típico do
garoto do Pedro II fazendo gazeta na Quinta da Boa Vista. Conta-se
que ele arranca contratos de publicidade até em velórios, até em
cemitérios. Pois bem: — e o Walter Clark só pensa no Fla—Flu*.
Assim que me viu, ele me arrastou para um canto.
Conversamos na varanda da TV Rio, diante do mar. Um cálido sopro
marinho devastou-lhe o chuca-chuca de menino prodígio.
Simplesmente, ele queria falar da batalha das batalhas. Em cima dos
seus sapatos, pôs-se a exaltar o Flamengo. E eu senti, desde o
primeiro momento, que a sua euforia é inteiramente errada,
inteiramente imprópria. Falta-lhe o sentimento trágico do Fla—Flu.
Com sua cara de garoto, cara de Mozart aos sete anos, ele faz me
a seguinte inconfidência: — vai comemorar a vitória com buscapé,
desfile, bombinhas, fogos diversos. Comprou um automóvel
branco, nupcial, imaculado, forrado de arminho. E esse carro de
noiva vai puxar a passeata. Pensa, também, numa charanga
wagneriana para dar o tom alto à comemoração.
Eu ouço o Walter Clark e calo. Mas há qualquer coisa de
suicida nessa alegria prévia. Amigos, sempre que vai estourar uma
catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo e córneo.
Foi assim, em Hiroxima, na manhã dominical da bomba. Nenhum presságio, nenhuma tensão, nada que turvasse a ternura da cidade.
Pastores, senhoras, crianças e babás tinham a mesma inconsciência
de um bodinho de charrete. E, de repente, há o clarão hediondo.
Eis o que me pergunto: — com as suas comemorações
antecipadas, o Walter Clark não estará arranjando a sua Hiroxima
particular? Todavia, esse estado de tensão dionisíaca não é apenas
do jovem tubarão da publicidade. As reportagens descrevem a
mesma euforia em todo o mundo rubro-negro. O treinador Flávio
Costa está calmo, e repito: — é a tal calma da catástrofe. Ao passo
que todo o Fluminense sente, na carne e na alma, a angústia que
anuncia as vitórias deslumbrantes.
Mas vejam a dupla experiência que está reservada ao Walter Clark: — ele hoje canta a vitória rubro-negra, para domingo chorar a
vitória tricolor. Foi assim também em 1919. Naquela ocasião, os
eternos rivais quebraram lanças numa batalha gigantesca. Quarenta
e quatro anos já rolaram depois disso. A cidade estava, como agora,
cálida de Fla—Flu. Lembro que, no dia do jogo, alguém morreu na
minha rua. E, no caixão, o defunto estava de cara amarrada, porque
não ia ver o clássico eterno. Mas como eu ia dizendo: — com o
mesmo otimismo trágico do Walter Clark, o Flamengo preparou a
apoteose. Quatro corneteiros, de casaca e esporas, esperavam, com
os respectivos cavalos, o final do match.
E venceu o Fluminense. Creio que não existe, na história de
um clube, nada que se compare ao nosso triunfo naquele Fla—Flu.
Quatro a zero. Pode-se ter uma idéia da ira e frustração dos
corneteiros. Os cavalos baixaram as orelhas desoladas, e mais
pareciam tristíssimos jumentos. Assim aconteceu há 44 anos. E
agora?
O profeta já anunciou: — “Fluminense, campeão de 63!”. Desta
coluna, eu já fiz um apelo aos tricolores, vivos ou mortos. Ninguém
pode faltar ao Maracanã domingo. Incluí os fantasmas na
convocação, e explico: — a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos. Em certos clássicos, cada adversário arrisca o
passado, o presente e o futuro. Precisamos pensar nos títulos já
possuídos. Ai do clube que não cultiva santas nostalgias. Com os
torcedores de hoje e os fantasmas de velhíssimos triunfos: —
ganharemos o mais dramático Fla—Flu de todos os tempos.
Campeonato Carioca de 1963.
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