segunda-feira, 3 de março de 2014
domingo, 2 de março de 2014
O LADO SEM LUZ E BRILHANTE DO BOM ELTON JOHN (Somtrês nº2, fevereiro de 1979)
EZEQUIEL NEVES
No dia 19 de junho de 75, quando os Rolling Stones iam se apresentar no gigantesco Hughes Stadium, em Denver, Colorado. Mick Jagger foi acordado por um telefonema inesperado. Do outro lado da linha, depois de se identificar e de rápidos cumprimentos, o cantor Elton John foi direto ao assunto:
- Hoje eu quero subir no palco com vocês, pelo menos para cantar um número.
- Que número ?
- Bem...o único que eu sei é "Honky Tonk Woman".
(Pausa)
- Está bem, mas apenas um número certo ?
- É claro, garoto. Você está com medo que eu roube o show ?
O diálogo foi registrado pelo escritor e jornalista Terry Southern, no livro The Rolling Stone on Tour,e, na ocasião,Jagger tinha todo o direito de temer que Elton lhe roubasse o show. Afinal, 75 foi considerado por todos os experts da pop music como "o ano de Elton John".
Além de haver transformado na maior atração da música popular anglo-americana, Elton também conseguiu superar os recordes de vendagem dos até então imbatíveis Elvis Presley e Beatles.
Uma façanha mais que justificável se levarmos em conta seu indiscutível talento como cantor e compositor, aliado ao fato de imprimir às suas canções, além de uma imediata comunicabilidade, todos os mais eficientes clichês conquistados pela pop music dos anos 50 e 60.
Trabalhando, desde 68, em parceria com o letrista Bernie Taupin, Elton (Reginald Kenneth Dwight) John, um inglês baixinho e careca, de 31 anos, até o ano passado gravou quase vinte LPs, e, embora seu pique de vendas tenha caído nos últimos anos, tudo indica que adquira novo punch graças ao seu último disco, o irretocável A Single Man. Além de haver produzido o LP com seu peculiar estilo de "feiticeiro do estúdio", Elton introduz em suas dez faixas um novo parceiro, Gary Osbourne, e surpreende também por ser absolutamente fiel ao título escolhido: "Um Solteirão".
Na verdade, mesmo nos números rápidos, o cantor/compositor/pianista injeta em suas novas composições um clima de solidão e amargura até então ausente em seus outros trabalhos. A Single Man poderia muito bem se chamar The Dark Side of Elton John, pois nem mesmo quando ele parodia, em "Big Dipper", um trecho da velha canção "Makin Whoopee”, consegue disfarçar sua atual e pungente melancolia.
Fatiando num cortador de frios camadas de diamante…
SEMANA DE FLA—FLU (O Globo, 13/12/1963)
NELSON RODRIGUES
Amigos, de vez em quando eu esbarro num rubro-negro
desvairado. Ainda ontem, encontrei, no posto 6, o Walter Clark.
Nunca vi ninguém tão Flamengo! Entre parênteses, Walter Clark é
um homem que vive tropeçando em milhões. Tem um ar típico do
garoto do Pedro II fazendo gazeta na Quinta da Boa Vista. Conta-se
que ele arranca contratos de publicidade até em velórios, até em
cemitérios. Pois bem: — e o Walter Clark só pensa no Fla—Flu*.
Assim que me viu, ele me arrastou para um canto.
Conversamos na varanda da TV Rio, diante do mar. Um cálido sopro
marinho devastou-lhe o chuca-chuca de menino prodígio.
Simplesmente, ele queria falar da batalha das batalhas. Em cima dos
seus sapatos, pôs-se a exaltar o Flamengo. E eu senti, desde o
primeiro momento, que a sua euforia é inteiramente errada,
inteiramente imprópria. Falta-lhe o sentimento trágico do Fla—Flu.
Com sua cara de garoto, cara de Mozart aos sete anos, ele faz me
a seguinte inconfidência: — vai comemorar a vitória com buscapé,
desfile, bombinhas, fogos diversos. Comprou um automóvel
branco, nupcial, imaculado, forrado de arminho. E esse carro de
noiva vai puxar a passeata. Pensa, também, numa charanga
wagneriana para dar o tom alto à comemoração.
Eu ouço o Walter Clark e calo. Mas há qualquer coisa de
suicida nessa alegria prévia. Amigos, sempre que vai estourar uma
catástrofe, o ser humano cai num otimismo obtuso, pétreo e córneo.
Foi assim, em Hiroxima, na manhã dominical da bomba. Nenhum presságio, nenhuma tensão, nada que turvasse a ternura da cidade.
Pastores, senhoras, crianças e babás tinham a mesma inconsciência
de um bodinho de charrete. E, de repente, há o clarão hediondo.
Eis o que me pergunto: — com as suas comemorações
antecipadas, o Walter Clark não estará arranjando a sua Hiroxima
particular? Todavia, esse estado de tensão dionisíaca não é apenas
do jovem tubarão da publicidade. As reportagens descrevem a
mesma euforia em todo o mundo rubro-negro. O treinador Flávio
Costa está calmo, e repito: — é a tal calma da catástrofe. Ao passo
que todo o Fluminense sente, na carne e na alma, a angústia que
anuncia as vitórias deslumbrantes.
Mas vejam a dupla experiência que está reservada ao Walter Clark: — ele hoje canta a vitória rubro-negra, para domingo chorar a
vitória tricolor. Foi assim também em 1919. Naquela ocasião, os
eternos rivais quebraram lanças numa batalha gigantesca. Quarenta
e quatro anos já rolaram depois disso. A cidade estava, como agora,
cálida de Fla—Flu. Lembro que, no dia do jogo, alguém morreu na
minha rua. E, no caixão, o defunto estava de cara amarrada, porque
não ia ver o clássico eterno. Mas como eu ia dizendo: — com o
mesmo otimismo trágico do Walter Clark, o Flamengo preparou a
apoteose. Quatro corneteiros, de casaca e esporas, esperavam, com
os respectivos cavalos, o final do match.
E venceu o Fluminense. Creio que não existe, na história de
um clube, nada que se compare ao nosso triunfo naquele Fla—Flu.
Quatro a zero. Pode-se ter uma idéia da ira e frustração dos
corneteiros. Os cavalos baixaram as orelhas desoladas, e mais
pareciam tristíssimos jumentos. Assim aconteceu há 44 anos. E
agora?
O profeta já anunciou: — “Fluminense, campeão de 63!”. Desta
coluna, eu já fiz um apelo aos tricolores, vivos ou mortos. Ninguém
pode faltar ao Maracanã domingo. Incluí os fantasmas na
convocação, e explico: — a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos. Em certos clássicos, cada adversário arrisca o
passado, o presente e o futuro. Precisamos pensar nos títulos já
possuídos. Ai do clube que não cultiva santas nostalgias. Com os
torcedores de hoje e os fantasmas de velhíssimos triunfos: —
ganharemos o mais dramático Fla—Flu de todos os tempos.
Campeonato Carioca de 1963.
sábado, 1 de março de 2014
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