domingo, 15 de abril de 2012
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domingo, 19 de fevereiro de 2012
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domingo, 27 de março de 2011
UMA VIAGEM AO INFERNO, NAS ASAS DOS GAVIÕES (Folha de S.Paulo, 12/12/1983)
PEPE ESCOBAR
Esta é uma viagem à replica tropical da sucursal do inferno.
Gaviões da Fiel, canto inferior esquerdo, acima das cabines de rádio, três da tarde. Prenúncio de tempestade, mas nada no céu tão negro quanto a massa humana. Mísseis de ogivas multidirecionais – de papel higiênico, serpentina, detritos variados ou pedaços de rojões – cruzam o espaço intermitentemente, em velocidade vertiginosa. Como aliviar o tédio ? Gaviões transformaram-se em abutres; e qualquer sujeito – e objeto – em movimento é um alvo preferencial. Do “outro” lado, na “nihilista” (segundo expressão de um torcedor) torcida do São Paulo, reina uma paz de pó de arroz e confetes delicados.
A polícia não entra nesta terra desolada. Quando surge uma escola de samba na pista – A Rosas de Ouro – os Gaviões transformam-se em águias lúbricas. A cada rebolado de uma mulata licenciosa, voam mais projéteis. Às quatro e meia , os dez primeiros degraus da arquibancada estão infrequentáveis. Uma figura esperneia. Leva cacos na cabeça. Sai sangue. Ele sai rindo.
De repente, o céu está – agora sim – mais negro que asa de qualquer graúna ou urubu diplomado. É o Curintia em campo, para delírio de donos de consórcios que almoçaram correndo em casa, depois de transarem correndo com a mulher – com medo de perder a hora com a turma, ou do semelhante, aquele que tomou quatro ônibus, veio enrolado na bandeira, tomou 348 projéteis na cabeça e bebeu tanto que quase perde o jogo.
A nuvem negra sufoca a todos – são objetos semelhantes a rojões, de onde sai um satânico negrume, misturando-se com bolos de serpentina branca e uivos ensandecidos. Esta é a receita do delírio tropical que os comunistas da PUC adoram.
Se no segundo tempo os dois times foram vencidos pela chuva, no primeiro reinou incólume a monotonia . Os gaviões viraram periquitos – afiando garras apenas para dirigir imprecações a Zenon ou a todo o ataque. Quando alguns já começavam a penar antecipadamente a viagem de volta, veio o gol de Sócrates. Mais projéteis. Petistas enlouquecidos, nessa hora, até apoiavam as indiretas – contanto que Sócrates estivesse na lista. Legiões de corpos emporcalhados até a medula perpetravam um Woodstock no cimento, até se esqueceram da entrada de Sandra Bréa no início da partida, saudando a torcida.
“Ela não está no mehor de sua condição física”, comentou um gavião ilustrado.
No segundo tempo, rigorosamente nada aconteceu até a primeira chance de gol do São Paulo aos 23’’. Solito salvou, sabe-se lá como, e São Pedro, para comemorar, abriu as torneiras dois minutos depois. Outra chance, aos 26’’, foi desperdiçada com a bola batendo no corpo molhado de um fosco indistinguível (pelo menos para a torcida) na defesa corintiana. Continuar nos Gaviões seria o máximo do masoquismo. No São Paulo, o nihilismo chegava às últimas conseqüências. Restaram apenas os pingos da chuva, como no melhor pop dos anos 60.
Nas numeradas, o final do preconceito de elite: a maioria absoluta era corintiana. Olhando para o alto, a partir das numeradas superiores, observava-se o que restou dos Gaviões: um bando disperso de chacais uivantes, literalmente pingados – e pingando. Concluída sua temporada no inferno – para eles, a versão mais acessível do paraíso -, rumaram felizes para o último grau do etilismo.
Mas fica-se imaginando o que sentiria um legítimo gavião caso penetrasse na sala de imprensa, após o jogo, e no meio de outra multidão de corpos emporcalhados – estes um pouco mais ilustrados – encontrasse a anfetamínica Sandra Bréa reclamando das trombadas que levou da segurança do Corinthians. Com a libido desenfreada em estágio final, só lhe restaria se atirar sobre a dita, urrando salve o curintia.
E comemorar o campeonato quase ganho em estilo. Ou sem.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
GAVIÕES PROTESTAM CONTRA ARTIGO (Folha de S.Paulo 13/12/1983)
Da Reportagem Local
O conselho deliberativo do Grêmio Gaviões da Fiel – Torcida Independente – será convocado para uma reunião extraordinária a fim de examinar medidas contra o jornalista Pepe Escobar, da “Folha”. Ontem, eram esboçados ofícios de protesto à direção deste jornal e à Associação de Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo. Os Gaviões (torcida organizada do Corinthians) repudiam a matéria do redator, publicada na edição de ontem, contendo expressões consideradas inaceitáveis.
O presidente Luis Antonio Mezner e o conselheiro Marco Antonio estiveram nesta redação para falar com o jornalista e depois seguiram para a sede dos Gaviões, que teve um dia inusitado. Cerca de 30 conselheiros, um número recorde, foram reclamar pessoalmente, além de inúmeros outros, que protestaram por telefone. Uma das primeiras manifestações foi de Claudio La Selva, que fundou o Grêmio, em 1969.
O tesoureiro do Grêmio, Avelino Leonardo Gomes, destacou alguns trechos da matéria intitulada “Uma Viagem ao Inferno, nas Asas dos Gaviões” para definir o redator como “elitista e discricionário”.
“Ele registra que “gaviões transformaram-se em abutres”, pretendendo que a torcida permaneça sentada , batendo palminhas e rindo, quando o time precisa de estímulo.
Concordamos com a nossa classificação de “águias lúbricas”: de fato, não podemos ver mulata sambando, queremos ficar o mais perto possível dela. Parece não ser o caso do jornalista. Paciência, cada um com sua preferência”.
Os diretores dos Gaviões não reconhecem “qualificação profissional do jornalista para analisar o comportamento da torcida. Ele precisaria ter vivência com a massa, mas parece ter repulsa dela. Enfim, é um assunto estranho a ele, especialista em rock.E não é todo roqueiro que gosta de samba”.
Segundo diretores, “A retórica com tinta política contida no texto é revoltante. Afirmar que “petistas enlouquecidos, nessa hora, até apoiariam as indiretas – contanto que Sócrates estivesse na lista” é chamar toda a torcida de alienada. Não temos nada com partidos, cada um aqui vota em quem quiser. Quais as evidências de que Sócrates seria o chamariz para uma eleição direta ? Todo mundo aqui está bronqueado com a situação do País, mas nosso negócio é futebol, sem qualquer envolvimento ideológico e partidário. Aliás, abominamos a política no esporte”.
Apesar das manifestações agressivas de muitos sócios – dois deles estiveram também na “Folha”, mais tarde, para interpelar o jornalista e fazer ameaças de morte -, a cúpula dos Gaviões passou o resto do dia apaziguando os ânimos.
Palavras de Pepe
O jornalista Pepe Escobar disse estranhar a irritação dos Gaviões e deixou claro que nenhuma linha de seu texto teve a intenção deliberada de agredir os torcedores. Pepe explicou que “não pretendi fazer um comentário sobre as reações da torcida. Meu propósito foi compor uma crônica, usando imagens. Relendo a matéria, não encontro nela nenhuma insinuação “pejorativa”.
Quanto à menção do PT, Pepe esclarece que “é notório que pelo menos quatro jogadores do Corinthians são militantes do partido”. O jornalista conta que conversou com vários torcedores do Corinthians e de outros clubes : “Achei fascinante a experiência de assistir ao jogo daquele local. Mas, sinceramente , não imaginei que meu trabalho fosse gerar toda essa polêmica, apesar de saber que os Gaviões agrupam um contigente enorme de adeptos e que até influem na política do clube”.
No texto acima temos o Pepe botando lenha na fogueira ( no começo da década de 80). Futebol é assunto sagrado nestas plagas.