segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
domingo, 23 de fevereiro de 2014
O CALEIDOSCÓPIO DE SURPRESAS DE MARVIN GAYE (Somtrês nº3, março de 1979)
EZEQUIEL NEVES
Fica meio estranho falar em "disco conceitual" quando se trata de um álbum de rythm and blues. Mas tudo muda de figura quando este LP traz na capa o nome do cantor/compositor Marvin Gaye. Com uma carreira de quase duas décadas dedicadas ao mais moderno, criativo e irretocável soul, Marvin (39 anos) já nos deu pelo menos duas obras-primas: o ecológico What's Going On (71) e o autêntico "Kama Sutra do Soul", Let's Get It On (73).
Único rival de Stevie Wonder em matéria de inventividade sonora, Marvin, após esses dois discos, preferiu mergulhar no autocanibalismo lançando um LP feito em estúdio e outros dois ao vivo onde a banalidade e a repetição de fórmulas eram as únicas constantes. Here, My Dear, (Top-Tape), além de ser seu primeiro trabalho em estúdio depois de dois anos, marca uma total ruptura com a mesmice . E, sendo um álbum duplo, representa um verdadeiro tour de force para este artista ímpar, cujas raízes estão pousadas no mais profano gospel.
Conceitual e confessional, Marvin, ao longo das catorze faixas de Here, My Dear, narra e questiona as atribulações acontecidas com ele nos últimos dois anos: seu divórcio com Anna Gordy (filha do proprietário da gravadora, a Motown), sua recente falência (ele deve dois milhões de dólares ao seu empresário Steven Hill) e a total inutilidade de trabalhar em um LP (o próprio Here...) em que segundo decisão judicial, sua percentagem será de apenas 5%. Talvez por causa disso, Here, My Dear soe, à primeira escutada, como algo tremendamente letárgico, repetitivo e sem nenhuma variação melódica. Mas,como aconteceu com os geniais There's a Riot Going On, de Sly Stone, e On The Corner, de Miles Davis, esta monotonia é apenas aparente. A cada nova audição o disco vai crescendo em dinamismo e inventividade até se transformar em um verdadeiro caleidoscópio de surpresas.
Lógico que existem faixas que logo se destacam e te envolvem por completo. Entre elas, a caudalosa "When Did You Stop Loving Me", "Sparrow", "Anna's Song", "Anger" e a funkíssima "Time to Get It Together". Mas todas as outras esbanjam também o enorme talento de Marvin em lidar com texturas sonoras e rítmicas que mesclam guitarras coachantes, metais, cordas, sintetizadores e percussão com um bom gosto de nos deixar sem fala. E, acima de tudo, há a sua voz privilegiada e acariciante que sempre fez do feeling sua própria razão de ser.
À primeira vista, Here, My Dear pode parecer um LP pessimista. Isso, contudo, é desmentido em sua última faixa "Falling In Love Again" - sinal de que Marvin está pronto para outra.
Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…
O DIVINO DELINQÜENTE (O Globo, 18/11/1963)
NELSON RODRIGUES
Amigos, vocês se lembram da vergonha de 50. Foi uma
humilhação pior que a de Canudos. O uruguaio Obdulio ganhou de
nosso escrete no grito e no dedo na cara. Não me venham dizer que o
escrete é apenas um time. Não. Se uma equipe entra em campo com
o nome do Brasil e tendo por fundo musical o hino pátrio — é como
se fosse a pátria em calções e chuteiras, a dar botinadas e a receber
botinadas.
Pois bem. Depois da experiência bíblica de 50, passamos a
rosnar, por todas as esquinas e por todos os botecos do continente, o
seguinte juízo final sobre nós: — “O brasileiro é bom de bola, mas
frouxo como homem”. É o que diziam, sim, de nós, com feroz
sarcasmo, os craques da Argentina e os craques do Uruguai. Até que
vem aquele famoso Campeonato Sul-Americano de 1959. Há o jogo
Brasil x Uruguai. E, de repente, estoura um sururu monstruoso. Brigaram até as cadeiras.
Foi uma página de Walter Scott. O próprio Chinesinho, com o
seu tamanho de anão de Velasquez, levou e deu bordoada. Lindo,
lindo foi quando Didi tomou distância, correu e saltou. Por um
momento ele se tornou leve, elástico, acrobático. E enfiou duas
chuteiras em flor na cara do inimigo. Quando parou a guerra e
continuou o jogo, demos um banho de bola. Ora, há uma nítida
relação entre a passividade de 50 e a agressividade do tal Sul-
Americano. As duas coisas estão ligadas e uma justifica a outra.
Certo e brilhante confrade dizia-me ontem que “futebol é bola”.
Não há juízo mais inexato, mais utópico, mais irrealístico. O colega
esvazia o futebol como um pneu, e repito: — retira do futebol tudo o que ele tem de misterioso e de patético. A mais sórdida pelada é de
uma complexidade shakespeariana. Às vezes, num córner mal ou
bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural. Eu diria
ainda ao ilustre confrade o seguinte: — em futebol, o pior cego é o
que só vê a bola.
Faço a meditação acima para justificar a escolha do meu
personagem: — Almir*. Alguém dirá que Almir é um delinqüente
irrecuperável. Amigos, vamos reexaminar o problema. “Ser ou não
ser delinqüente”, “ser ou não ser paranóico”, eis a questão. Mas os
mesmos que agora exigem a cabeça de Almir, como se ela fosse a de
Maria Antonieta, gostam muito de Didi. Eu próprio tenho por Didi
uma admiração de macaca-de-auditório. Dei-lhe o nome de “Príncipe
Etíope de Rancho”. Mas já diziam os acácios e os pachecos da
crônica: fato é fato. E Didi, conforme todo mundo sabe, quebrou a
perna de Mendonça.
Estava lá o Armando Nogueira. Ora, o Armando é um lúcido,
um sensível e, sobretudo, um justo. O Otto Lara Resende vai mais
longe e jura que esse nobre confrade é o único pastor protestante
escocês que jamais existiu. Eu pergunto ao pastor escocês que há no
Armando se ele, Armando, usou a ênfase de um Moisés ou a ira de
um Zola para chamar Didi de “paranóico” ou de “delinqüente”.
Há mais. Ainda o meu amigo Armando Nogueira viu quando,
há tempos, Amarildo quebrou Jair Marinho, do Fluminense. Lá saiu
o esplêndido zagueiro de maca, e quase de rabecão. O Armando, que
é, repito, um justo, foi testemunha ocular e auditiva do fato. Digo
“auditiva” porque ele “ouviu” o som inequívoco da fratura. Jogavam
Botafogo x Fluminense e um autêntico alvinegro foge do túmulo para
ir torcer.
Não lembro o que escreveu o Armando a respeito. Amigos, ando
sofrendo freqüentes lapsos de memória. Mas suponho que o pastor protestante escocês tenha aproveitado a chance para taxar o
“Possesso” de “delinqüente” e de “paranóico”. E se poderia citar
dezenas, centenas de exemplos. O match Chile x Itália, em 62, foi
canibalesco. Os adversários só faltavam chupar as carótidas uns dos
outros. Em 58, no match Suécia x Alemanha, os 22 jogadores
agrediram-se a dentadas.
Nós é que vamos exigir, de um jogo de futebol, a cerimônia, a
polidez, a correção de uma sessão da Câmara dos Comuns? O meu
amigo Armando Nogueira se horroriza com o meu personagem da
semana como se este tivesse inaugurado o foul no futebol. Se o jogo
fosse só a bola, está certo. Mas há o ser humano por trás da bola, e
digo mais: — a bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O
que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a
compaixão. E o lindo, o sublime na vitória do Santos é que, atrás
dela, há o homem brasileiro com o seu peito largo, lustroso,
homérico.
O Santos é uma equipe assassinada, e repito: — assassinada
pela inépcia e desumanidade de seus dirigentes. Nenhuma equipe
terrena pode jogar tanto sem se morrer. E, contra o marcadíssimo
Milan, o glorioso time ruía aos pedaços, estrebuchava, agonizava.
Nunca houve cansaço tamanho. E, apesar disso, ganhou do Milan na
mais linda reação que se conhece. Ganhou duas vezes. Por que
agredir a vitória não de um time, mas do homem brasileiro? Por que
esse ressentimento inconfesso, mas nítido, contra o Santos? Mas
voltemos ao meu personagem da semana. Teve uma grande e cálida
atuação no feito brasileiro. Será “paranóico” porque chutou
Amarildo? E Didi, e o próprio Amarildo, e tantos outros? Por justiça,
o meu amigo pessoal Armando Nogueira devia aparecer na boca de
cena para declarar: “Meus senhores e minhas senhoras. Só vejo
paranóicos na minha frente”.
* Santos 1 x 0 Milan, 16/11/1963, no Maracanã. Almir acertou Amarildo no primeiro
minuto de jogo, tirou de campo o goleiro Balzarini e cavou o pênalti, cobrado por
Dalmo, que tornaria o Santos bicampeão mundial de clubes.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Assinar:
Postagens (Atom)